O último jogo foi contra as Washington Mystics e a sua equipa venceu por 77-58. Depois de 15 anos a jogar basquetebol profissional na WNBA, Ticha Penicheiro decidiu retirar-se em Setembro deste ano. O plano seguinte é tornar-se agente desportiva, mas até lá Ticha tem aproveitado o tempo para visitar a família e descontrair.
A amiga Sara Ferreira relembra que ela andava sempre com uma bola de basquete atrás. Oriana Cação, outra amiga, diz que ela comia, bebia e respirava basquetebol. O irmão conta que em pequenos andavam sempre às turras mas que era nos jogos no campo das ‘traseiras’ que encontravam os momentos de paz. O pai explica que ela trocou as bonecas pelo basquete. Para Ticha Penicheiro, a explicação é mais simples: “Foi amor à primeira vista”.
Nascida a 18 de Setembro de 1974 e natural da Figueira da Foz, Patrícia Nunes Penicheiro teve contacto com o basquetebol desde muito cedo. O pai, antigo atleta e treinador da modalidade, transmitiu o “bichinho do basquete” aos filhos. “Ela, com seis anos via-nos – a mim e ao irmão – a ir para os pavilhões, acompanhava-nos, brincava nas ‘traseiras’, um campo que havia perto de casa, e foi aí que começou a tomar o gosto pela modalidade”, explica João Penicheiro. “Eu jogava todos os dias na escola, em casa ou no ginásio” conta Patrícia. A mãe, Helena Penicheiro, relembra que ela ia para as ‘traseiras’ e “às vezes ficava por lá a brincar e não vinha jantar”.
“A Ticha foi uma menina que cresceu sempre longe de nós”, desabafa a mãe. Desde os 16 anos que a atleta tem vivido longe da família. Numa primeira fase, morou em Rio Maior e, posteriormente, em Santarém. Mas, em 1994, Ticha saiu “de armas e bagagens para o outro lado do Atlântico”, como ela diz, atrás do sonho. “Um sonho que supostamente era meu”, acrescenta Paulo, o irmão. Mas, nessa altura, a WNBA ainda não existia e o objectivo era diferente: “Sempre tive o sonho de jogar em Itália, mas com aparecimento da WNBA, os planos mudaram.”
Apelidada de Lady Magic por Magic Johnson, jogador dos LA Lakers, Ticha sempre mostrou um talento inato. “Desde pequena que se notou que ela era uma pessoa fora do vulgar em termos desportivos”, admite Luís Filipe Antunes, professor de Educação Física e antigo treinador de Ticha. Imaginativa, dedicada e alegre são os adjectivos que o professor usa para descrever o modo de jogar da atleta.
“A Ticha era uma miúda super-alegre, onde ela estivesse não havia sossego”, conta Oriana, amiga de infância. “E ela transmitia essa alegria às colegas de equipa”, acrescenta Luís Filipe. Nos treinos, a jogadora, que já demonstrava a sua capacidade de liderança, “puxava pela equipa, mas sem mostrar superioridade”, relembra. “Eu nunca a vi ter um comentário negativo sobre alguma colega”, confirma Sara Ferreira, amiga e antiga colega de equipa.
Com 11 anos, Ticha integrou a equipa masculina de iniciados do Ginásio Clube Figueirense, pois não havia raparigas a praticar essa modalidade na Figueira da Foz. “Eu era ‘maria-rapaz’, se calhar muita gente nem sabia que eu era uma rapariga” comenta. “Quando ia ver os jogos” – conta Paulo Penicheiro – “as pessoas comentavam que aquele rapazito era muito bom e eu ria-me e dizia: ’não é um rapazito, é a minha irmã’.”
O pai, que na altura era também treinador da equipa, confirma e acrescenta que a integração não foi difícil: “A Ticha tinha uma técnica muito evoluída para a idade, o que fazia dela uma dos melhores da equipa. A única dificuldade era, sempre que íamos jogar fora, termos de arranjar dois balneários, porque dentro de campo ela parecia um rapaz a jogar”, esclarece. E o seu talento não ficou escondido por muito tempo. No primeiro torneio em que Ticha participou, a atleta foi considerada a melhor jogadora da competição. “Estão a ver a cara dos rapazes quando uma rapariga ganha o MVP (Most Valuable Player), não estão?”, conta entre risos Oriana Cação.
Mesmo com o desejo de jogar em Itália, Ticha Penicheiro aproveitou a oportunidade de ir jogar na universidade de Old Dominion, nos Estados Unidos, com uma bolsa de estudo. “Havia uma americana, que jogou contra a Ticha, que se apercebeu das características dela” – conta a mãe – “e essa jogadora, curiosamente, acabou por ingressar nos quadros técnicos da universidade e convidou-a.”
Para entrar na universidade, Ticha tinha que fazer dois exames: o TOEFL (Test Of English as a Foreign Language) e o exame de admissão. “No TOEFL ela não teve dificuldades, mas no acesso à universidade é que ficou próxima, mas não conseguiu”, esclarece João Penicheiro. “Mas como, no ano seguinte, conseguiu entrar no ISLA em Santarém, já não foi necessário fazer esse teste outra vez.”
Enquanto estudava para tirar o curso de comunicação social, Ticha ajudou a equipa de Old Dominion a ser vice-campeã nacional. Mas este percurso não foi fácil para a jovem atleta: “Levantava-se às seis da manhã para ir treinar”, relata Helena. “Depois do treino ia para as aulas e quando chegava a casa tinha que fazer os trabalhos, antes de ir outra vez para o treino.”
Com o aparecimento da WNBA, Ticha foi aconselhada a ficar mais um ano na universidade porque, como explica o pai, “no primeiro ano [da WNBA] ela passava despercebida entre as vedetas americanas que eram recrutadas”. E no ano seguinte, 1998, Ticha foi escolhida em segundo lugar no “draft”, o processo pelo qual as atletas das universidades são escolhidas pelas equipas profissionais. Ticha ingressou nas Sacramento Monarchs.
No Verão, na WNBA. No Inverno, Ticha vinha jogar à Europa. “Ela privava-se de férias e hoje sofre essas consequências”, afirma João Penicheiro. Durante 14 anos, a atleta dividiu as épocas entre os dois continentes sem descanso. “Foi muito difícil para ela”, explica o pai.“A Ticha teve imensas lesões devido ao esforço que fez ao longo destes anos todos.”
E foi por essa razão que a Lady Magic decidiu guardar as sapatilhas: “As lesões impediram-me de jogar ao mais alto nível que é como eu gosto”. Durante 11 anos, Ticha jogou nas Sacramento Monarchs mas, em 2010, devido ao fim da equipa, passou a vestir a camisola das Los Angeles Sparks, e terminou a carreira, este ano, nas Chicago Sky.
Conhecida pelo seu recorde em assistências (total de 2.597), inscritas no livro do Guinness, Ticha Penicheiro privilegiou, desde sempre, o basquetebol de espectáculo. “Era muito imaginativa e dedicada a jogar”, relembra Luís Filipe Antunes. “Criava sempre novas maneiras de finalizar a jogada e gostava de experimentar novas técnicas.” Passes sem olhar, por baixo das pernas, por trás das costas, assistências que ninguém previa. “Muitas vezes os colegas até levavam com a bola na cara”, conta o pai. Helena Penicheiro considera que “muitas jogadoras de agora foram ‘beber’ dela”.
Sem se desligar do desporto, a atleta já pensa numa nova carreira: “Em princípio vou ser agente desportiva, mas ainda não está nada definido a 100 por cento”, explica Ticha. “Só em Fevereiro ou Março é que tomo a decisão.” Segundo a mãe, Patrícia “tem uma característica importante: é segura nas escolhas que faz”. Mas até começar este novo capítulo, Ticha decidiu visitar a
família em Portugal e aproveitar o tempo livre: “Estive um mês em Miami: praia, piscina, algum voleibol de praia e até tentei surfar umas ondas”, conta.
A paixão de Ticha Penicheiro ainda faz parte da vida da ex-jogadora: “Continuo a ser fã do basquete”, afirma. “Fui ver alguns jogos, ao vivo, da minha equipa favorita da NBA, Miami Heat.” Quanto à liga feminina, “torço por todas as minhas colegas e continuo a acompanhar o inimigo pela internet”, declara.
Para além dos feitos que a jogadora alcançou, Ticha, fora das linhas do campo, tem uma “marca registada”, como diz Sara Ferreira: “Ela não esquece os amigos.” Apesar da distância, as amizades que foi fazendo perduram. “Sempre que cá vem enfia-nos na agenda no meio das entrevistas, nem que seja só um bocadinho”, conta Oriana.
Os fãs que acompanharam a atleta ao longo de 15 anos na WNBA continuam a apoiar a Lady Magic. “Alguns mostram tristeza e decepção na minha retirada”, acrescenta. “Mas o mais importante é que o basquetebol continue a andar para a frente.”