Perfil – “Aquele Menino Que Ganhou muitos Prémios”
As rececionistas veem-no entrar pela porta do edifício da SIC para mais um dia de trabalho. “Boa Tarde” diz ele com um sorriso enquanto passa o cartão no torniquete. Para elas, ele é “aquele menino que ganhou muitos prémios”; para nós é Jorge Pelicano, o conhecido cineasta e repórter de imagem.
Segue o seu percurso até à mesa do coordenador para saber quais são os trabalhos disponíveis. Hoje, está na informação diária. Dirige-se ao seu cacifo onde tem a sua câmara e o material. Apenas os repórteres mais experientes têm uma câmara própria mas, apesar de ter apenas 34 anos, Jorge já faz parte desse grupo. Pega no microfone, no tripé, no foco, nos DVDs, calibra a câmara, confirma as baterias e leva todo o material para o carro da SIC.
Com o material todo pronto, ele e Anselmo Crespo, o jornalista destacado para o trabalho, dirigem-se a Torres Vedras, onde Pedro Passos Coelho irá fazer campanha para as Eleições Legislativas. Pelo caminho, ambos trocam ideias sobre a peça para a qual se dirigem. Mas a viagem é longa de mais para debater pormenores e a conversa perde-se por entre outros assuntos. “Ouvi dizer que ganhaste outro prémio…”, diz Anselmo. “Sim”, era verdade. Nesse fim de semana, Jorge Pelicano tinha ido a Itália com a sua namorada, Rosa, para receber mais um prémio pelo seu mais recente documentário. Ao todo “Ainda há Pastores?” e “Pare, Escute, Olhe” já arrecadaram mais de 20 prémios, tanto a nível nacional como internacional. Dos seus planos futuros faz parte um regresso ao interior do país para criar um novo documentário. O seu fascínio pelo interior prende-se com as histórias que têm de ser registadas antes que caiam no esquecimento.
Chegam a Torres Vedras. As ruas estão cheias de pessoas que esperam ansiosamente o candidato. Outros jornalistas e repórteres de imagem também lá estão. Chega a altura de pegar na câmara e Jorge faz isso melhor do que ninguém. No meio da confusão todos tentam apanhar a melhor imagem. Passado algum tempo alguns repórteres afastam-se, mas Jorge Pelicano continua em cima do acontecimento a tirar as melhores imagens. Numa profissão em que a originalidade é importante, é necessário ter em conta o que os outros fizeram e diferenciar-se.
Mas uma peça sobre a campanha eleitoral é uma peça simples. As imagens são bastante focadas no candidato e pouco há para inovar. No entanto, em outras situações, as imagens chocantes de Jorge abriram o telejornal. Falamos da força das chamas que anualmente consomem mais um bocadinho de Portugal. Foi ele que, ao enfrentar o incêndio no Pedrógão Grande, levou, pela primeira vez até à televisão, o poder do fogo. Estava no sítio certo na altura certa e a sua câmara captava tudo o que se passava em redor. Era como um espectador de uma peça de teatro que apenas registava o momento sem nele participar, “apenas filmava, filmava como se me tivesse tornado numa máquina de filmar, sem coração”, explica na sua contribuição para o livro “Câmara de Reflexão – Uma Imagem, mil Palavras”. Mas nem sempre é assim. Numa outra situação, Jorge enfrentou o seu “eu repórter” e trocou a câmara por baldes de água, pois as casas que estavam à mercê do fogo pertenciam a familiares e amigos. Duas situações diferentes que mostram a sua personalidade forte.
A persistência e teimosia são algumas das características essenciais para criar boas imagens, e é com essa persistência e teimosia que Pelicano se dedica a todo tipo de trabalhos: peças, documentários e reportagens. Foi essa a razão que o levou de Coimbra para Lisboa para ingressar na equipa do programa Grande Reportagem. Nesta forma de jornalismo é necessário saber criar cenários, regular a luz e fazer as imagens brilhar. Por vezes ele tem de idealizar situações, colocar objetos nos sítios certos e fazer com que tudo seja como dita a história. Neste trabalho mais solitário, Jorge começa por explorar o sítio: procura o que interessa filmar, planifica a filmagem, concebe o produto final. A sua experiência a gravar casamentos foi um grande contributo para a sua maneira de captar o mundo. Com essa planificação e com o guião da reportagem na mão é necessário filmar pormenores, planos de recorte, panorâmicas, focar e desfocar os planos; é necessário, por vezes, reconstruir.
Desta vez está a reconstruir uma das maiores fugas do mundo. 124 reclusos saíram da prisão de Vale de Judeus em 1979 através de um buraco cavado no chão de uma cela. Deixando a câmara de lado, Pelicano procura um pouco de terra, coloca-a no chão e, de uma caixa de cartão espalmada, faz um tapete. Grava uma, duas, três vezes, muda de lugar, ajusta a câmara para reconstruir o momento. Depois de várias imagens é preciso deixar tudo como estava: agarra a maior parte da terra do chão e sacode as partículas mais pequenas para os lados, “isto aprendi na minha vida de estudante”, diz enquanto varre o chão com as mãos. Com as imagens capturadas, Jorge passa à sonoplastia. De microfone na mão, o repórter percorre os corredores, abre e fecha portas para poder complementar as filmagens. Os seus trabalhos mostram a maneira única como o jovem cineasta se entrega à sua atividade profissional. A paixão, a dedicação para com a câmara, é o que o motiva. A sua intuição, vocação e a prática permitem-lhe levar os espectadores até às histórias de vida das outras pessoas. “A vida por vezes não faz sentido, mas é esse sem sentido da vida que alimenta parte da minha profissão”, conclui.
É preciso arrumar o material e voltar a Lisboa. Jorge Pelicano faz-se à estrada, desta vez sozinho. Pelas ruas, as pessoas por quem passa acenam entusiasmadas ao carro da SIC. Para Jorge, isso já é normal.